As meninas boas não vão para o céu

Um discreto choramingo vinha do quarto da menina. A vovó foi checar, com um ar discretamente crispado, pois o sono da neta não andava muito bom. Delicadamente tocou-a nos ombros. Ela abriu os olhos assustados, voltou a fechá-los, e depois se espreguiçou.

– O que foi, meu amor?

– Nada.

– Você percebeu que estava chorando?

– Hum…(espreguiçando-se), acho que sim.

– Você se lembra de alguma coisa?

Sentou-se na cama.

– Eu tive um sonho.

– E o que você sonhou?

– Sonhei que estava numa estrada, andando, sem ninguém por perto. Eu procurava, procurava por alguém, e nada… aí, abriu uma espécie de buraco, no chão ou no ar, e começou a sair uma luz muito clara de lá…

– E aí?

– Aí, era como se eu tivesse que passar pelo buraco, como a Alice no País das Maravilhas.

– E você passou pelo buraco de luz?

– …não…, não tive coragem…, comecei a ficar com muito medo, muito, muito medo…

A avó ficou quieta, aguardando o fim do relato, mal disfarçando a apreensão.

– …sabe, vovó, era como se alguma coisa me puxasse para aquele buraco, e não tivesse como se escapar…

– E aí?

– Aí eu acordei.

Com a mão, a avó foi suavemente guiando a cabeça da menina para o travesseiro.

– Vó?

– Oi?

– Por que a gente precisa ter medo?

Ah, não. Uma daquelas perguntas às cinco da manhã era demais para uma simples avó.

– Vamos conversar sobre isso mais tarde? Dorme mais um pouquinho que depois…

– Vó.

Aquele tom decidido. A avó sabia como isso terminava.

– Fala.

– Eu estou com medo de dormir e aparecer aquele buraco.

– Não precisa ter medo.

– Você conhece aquele buraco?

– Mais ou menos…, mas vamos fazer aquela oração para São Miguel para espantar os sonhos ruins, que você vai dormir num minuto, tá bom?

– Ah, vovó, conta uma histórinha, vai, conta, conta, vai, vovó?

Eu não disse que ela sabia como terminava?

– Eu vou contar aquela história da Branca de Neve que eu te prometi, tá bom?

– Oba.

– Outro dia você estava me perguntando sobre crise. Lembra?

– Claro. Meu pai e minha mãe estavam “na” crise.

– Exato.

– Aí você me falou que a Branca de Neve era boa para entender…, uma palavra difícil, entender o que, mesmo?

– O processo.

– Isso. O que é mesmo um processo, vovó?

– É como uma pequena história. Tem começo, meio e fim.

– Ah, bom. (Não entendeu nada mas não falou, para não desagradar a vovó)

– Então deita, que eu te conto essa história da Branca de Neve, mas do meu jeito, ta bom?

Obedeceu.

– Era uma vez, em um reino distante, uma princesa muito bela, que tinha a pele muito branca, como a neve. Seu nome era…

– Branca de Neve.

– Fica quieta, menina.

A menina se acabou de tanto rir.

– Como eu ía dizendo, era uma vez a princesa Branca de Neve. Ela era muito boa de coração, e gostava de cuidar das plantinhas e dos bichinhos. Apesar de sua bondade, Branca de Neve tinha uma madrasta muito malvada, que não só não gostava dela como não deixava a pobre menina crescer. E a madrasta tinha um jeito muito bom de não deixá-la crescer…

– Qual?

– Ela fazia Branca de Neve ser menos do que ela era.

– Como assim?

– Ela fez Branca de Neve se vestir e trabalhar como uma simples camponesa. Foi uma estratégia muito esperta, porque logo ela estava acreditando que era muito humilde, muito boazinha…, tentava fazer com alegria as suas atividades, pegava água do poço, esfregava o chão, cantava alegremente com os passarinhos… a madrasta tinha conseguido o que queria: transformar a Branca de Neve em uma menina boazinha.

– Meu pai sempre me fala para eu ser boazinha.

– Eu sei. Eu sei.(Pensou: e agora, como saio dessa?) A madrasta se aproveitou disso. O pai da Branca de Neve também dizia isso para ela, e ela decidiu obedecer a Rainha Má. Ela confundiu ser boa com ser boazinha… e aí, sabe o que aconteceu?

– Não.

– Ela foi ficando com a vida apertada, apertada, até sufocar…, de tanto ser boazinha, Branca de Neve foi tendo que usar roupas apertadas, sapatos apertados e fazer tarefas menores do que ela podia fazer.

– Não é para a gente ser boazinha, então? Mais uma daquelas perguntas que deixavam a vovó sem fôlego.

– É para a gente ter bondade no coração, minha querida. Mas tem uma bondade que é chamada “bondade ilícita”.

– O que é “bondade “iplícita”, vovó?

Essa mania da vovó de usar palavras difíceis.

– Bondade ilícita é quando a gente é tão boazinha, mas tão boazinha, que todo mundo faz da gente o que quer. E aí, sabe o que acontece?

– O quê?

– Quem nasce para ser princesa acaba virando uma mendiga. Esse é o truque da Rainha Má: fazer acreditar que ser bom, ser humilde, é abrir mão de ser o que a gente é. Ela faz a gente acreditar que, se a princesa crescer e ficar muito bonita, vai magoar muito as pessoas. Então, as Brancas de Neve boazinhas ficam lá, esfregando o chão e esperando quando o príncipe vai aparecer para salvá-las.

A menina ficou muito intrigada com aquilo. Se contasse para o pai o que a vovó estava revelando, ele iria trovejar pela casa: “Eu não falei para não deixar essa menina ir para a casa daquela velha maluca?”.

– Vó?

– Oi?

– Mas o príncipe aparece para ela.

– Eu sei. Aparece enquanto ela está cantando e esfregando o chão, e canta uma música muito bonita para ela. E aí, o que ela faz?

– Se esconde no castelo.

– Isso que acontece com as Brancas de Neve boazinhas, minha querida: esperam a vida toda por um salvador, e, quando ele aparece, dão logo um jeito de sair correndo, ou ficam tão nervosas que acabam estragando tudo.

– Por que, vovó?

– Porque não adianta aparecer o príncipe certo na hora errada. É preciso que a Branca de Neve se prepare para ele. Não dá para ela receber um príncipe vestida daquele jeito. Ela precisa deixar de ser uma mendiga. Ela precisa sair debaixo da asa da Rainha Má.

– E por que ela não foge?

– Porque ela não consegue enxergar além dos muros do palácio. Lá é ruim, mas, e lá fora? Como vai ser lutar pela vida, enfrentar o desconhecido?

– Quem é esse tal de “desconhecido”?

– É o que a gente não descobriu ainda, porque preferimos esfregar o chão do que sair para fora do palácio.

A menina coçou a cabeça.

– Vó?

– Oi.

– Você não me falou por que a gente precisa ter medo…

– O medo serve para duas coisas, minha filha: fazer a gente parar, ou fazer a gente se mexer. Normalmente, as pessoas usam o medo para ficarem bem paradinhas no lugar, fazendo xixi na calça de medo. Mas tem gente que usa o medo para correr, correr muito, até achar um lugar bom, onde não precise mais ter medo.

– Quer dizer que tem dois medos?

– Não, meu amor. Medo é medo. É um só. O que é diferente é o que você faz com ele.

– Mas você falou que às vezes a gente tem que parar antes de achar a saída.

Sorriu luminosamente para a menina.

– Como você é linda e esperta ! Você lembrou ! Está certo, é isso mesmo. Antes de sair do castelo da Rainha malvada, às vezes precisamos ficar um tempo por lá, até aparecer uma oportunidade. E quem vai oferecer esta oportunidade é a própria Rainha.

– Como assim?

– Na vida, as mesmas pessoas que tentam impedir o nosso crescimento são as que acabam nos levando a crescer. Entendeu?

– Não entendi nada.

– É o que eu chamo de Bruxa-Guia.

– O que é uma Bruxa-Guia?

– Bruxa-Guia é uma pessoa, um emprego, uma situação em que tudo o que atrapalha acaba mostrando o caminho de saída, o caminho por onde você vai deixar de ser uma mendiga, vai deixar de ficar mendigando afeto, consideração, reconhecimento. Essas coisas que as pessoas costumam mendigar sendo muito boazinhas. Apesar de atrapalhar muito, a Rainha malvada vai acabar guiando a Branca de Neve até onde ela deseja ir.

– Como?

– Ela vai obrigara a Branca de Neve a sair de lá e cair no mundo. E sabe quem vai ajudá-la sem querer?

– Quem?

– O Espelho Dedo-duro!

– O quê?

– O Espelho-espelho-meu! Ele sabe quem é Branca de Neve! Ele sabe que ela vai ser melhor do que a Rainha! Ele vai contar isso para aquela mocréia, e ela vai fazer o maior favor da vida da Branca.

– Qual?

– Vai mandar matá-la.

A menina arregalou um olho, e franziu a testa.

– Isso foi um favor?

– Lembre-se disso, minha querida: quando as coisas ruins acontecem para as pessoas boas, é para elas deixarem a bondade ilícita, deixar as roupas rasgadas e o quartinho apertado das suas vidas e correr, correr muito, até encontrar o que mais procuram.

Fez a expressão característica de que a vovó estava viajando um pouquinho, e ela começava a não entender patavina daquela história. No vídeo, tudo parecia muito mais simples. A velha senhora percebeu claramente o ponto de interrogação escrito na testa da menina.

– Sabe aquela menina, que você não gosta?

– A Amanda.

– Isso. Ela não tentou puxar o seu tapete?

– Não. Na escola não tem tapetes, a professora disse que a gente escorrega e…

– Não, não é isso…, você não me contou que ela quis tirar você do time de futebol?

A expressão do seu rosto se enrijeceu.

– Foi.

– Isso que é puxar o tapete. É o que a rainha tentou fazer com a Branca-de-Neve: tentou acabar com ela, impedí-la de crescer, de virar quem ela era de verdade. Agora, conta pra mim, o que você teve vontade de fazer quando soube que a Amanda estava tentando te tirar do time?

– Tive vontade de arrancar todos os cabelos dela.

– E por que você não fez isso?

– Porque se eu faço isso eles chamam os meus pais na escola, e aí não posso mais jogar.

– Você não arrancou os cabelos dela, então.

– Não.

– O que você fez?

– Arrebentei com o outro jogo. Fiz três gols, e dei o passe para mais um. E ela ficou com cara de tacho, enquanto todo mundo me abraçava e …

Interrompeu bruscamente a sua fala. O seu rosto se iluminou completamente e ela olhou para a avó com sua cara de Eureka!

– Vó?

– Oi?

– Entendi o que você quis dizer com a Bruxa-Guia! No começo, ela atrapalha, mas depois a gente enche a bobona de gols.

– É isso mesmo. Mas lembre-se de uma coisa.

– De quê?

– Quando você ficou com vontade de arrancar os cabelos dela, antes de fazer uma bobagem, você parou e pensou, não foi?

– Foi.

– Por isso que a gente passa umas temporadas no castelo da Rainha malvada. Para aprendermos a parar e esperar o momento certo de sair de lá. Agora você entendeu?

– Entendi, sim, obrigada.

– Agora você pode tentar dormir de novo?

– Posso.

– Que bom.

– Vó?

– Oi.

– Não se preocupe, que eu vou sempre encher a Rainha Má de gols.

– Faça alguns pela vovó.


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